sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Parco desejo

O que nos dá a vida em um segundo
Tira-nos no segundo seguinte
O abrupto de momentos singulares
O correr contra a própria desaparição
Ganhar e perder como face de uma
Mesma moeda tempotodo revirada
O bem e o mal a perseguir-nos
Nosso desejo principal movido
Por desejos outros que são disfarces
O ponto zero da existência é o
Mesmo ponto final trágico:
A morte anunciando-se desde o começo
E o que procuramos a cada momento
É o contato com algo puro
Que nos faça viver pouco mais
Vida trágica e trágica essência
Nós mortais vivemos no sofrimento
De um dia sabermo-nos para a morte
Longe dela fugir, enfrentá-la!

De tudo, em tudo...

O muro que me separa do mundo
__quem o construiu?
Essa tristeza que me invade tempotodo
__quem a colocou dentro de mim?
Um instante parado no tempo
__quem poderia contabilizá-lo?
Esse rebanho do qual faço parte
__quem o comanda sob chicote?
Um sonho que me persegue no descanso
__quem continua a alimentá-lo?
As perguntas que formulo a cada momento
__quem teria as respostas?
De tudo, em tudo, um pouco de nada

Esforço de ser


Agorinha mesmo eu poderia ter sigo alguém
Entre um facho de nonsense e de loucura
Um momento de crispamento e de emoção
Ontem eu tentei ansiosamente ser algo
Mas meus próprios desejos me derrubaram
Agora, degrau por degrau, a longa escada
Lentamente sendo novamente escalada
Amanhã tentarei alcançar meu ser
E se o futuro for como o passado
Já desconfio que minhas chances
Tanta vezes adiadas, serão mínimas
Meu fim me aguarda na próxima esquina...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Existência


homens cruzando por noites imensas
imensas suas cabeças que pensam
homens que morrem de medo a cada
instante em que topam com sombras
de outros homens que também se topam...
seres que usam a noite pela
insuficiência de seu dia
que usam a noite para pensar as coisas
homens que se ligam por momentos
curtos e no entanto ininterruptos
e depois partem cada um pelo seu
caminho com a certeza evidente de que
um novo encontro é mera ilusão
seres que circulam perdidos por bares
bebem e na bebida encontram conforto
conforto por seus dias mal vividos
nos bares encontram homens iguais
bebem, jogam, transpiram emoção
mas quando a porta do bar abaixa todos
partem novamente divididos e insaciáveis
com a carga da solidão em suas costas
homens que se cruzam no interior de bordeis
e o encontro é apenas um olhar
a cumplicidade do prazer a ser vivido
o gosto pela mesma mulher da vida
um olhar de cumplicidade que se percebe
um desejo um dia a ser compartilhado
homens de cidades grandes e movimentadas
tantos com quem cruzar-se o tempo todo
tantos também a serem esquecidos
homens que perambulam homens
perambulam homens per-ambulam

Esperando Z.

I
Sinto o desespero
Invadir-me aos poucos
Longe do tudo que me completaria
Mergulho no nada de mim mesmo
Flutuo entre coisas esperadas
Um beijo, um abraço, uma palavra
Apavora-me o distanciamento das coisas
Câncer que percorre carne marcada
O amor, o derradeiro amor
O último um dia prometido
E que agora invade todos os poros
De um corpo que passa do tempo
E longe de cruzar oceanos
Em busca da pessoa adorada
Espero seu assédio em meu canto
Torcendo por um alô de sua parte
E reparto-me em cores que são
Máscaras e disfarces do que posso ser
O mundo é perigoso por si mesmo
E caminhamos entre destroços humanos
Ídolos que se suicidam em seu insuportável
E nossos romances rompidos por um dia
Se buscamos abrigo em felicidade alheia
Quão frágil poderá ser nosso triunfo!
Como galgar montanhas de ignorância?
Como poder ser em meio à turbulência...
Eu busco e não encontro o que me possa
Fazer-me sentir o que um dia puder ser
Metafísica por demais cruel e idiota
A de tentar ser o que o outro é
Esse outro que não tem obrigação alguma
De responder a nossos tolos desejos
E longe do gozo sempre esperado
O tempo-todo cavalgamos cavalos selvagens
II
E prontos para o entendimento supremo
Onde a vontade jamais subjuga a razão
Pensamos poder moldar nossa existência
Longe de exato sofrimento
E pensamos de alguma forma o seguinte:
O que um homem pode amar em outro
Homem é o simples sofrimento
O que uma mulher pode amar em outra
Mulher é o puro saber
O que um homem pode amar em uma
Mulher é o nada absoluto, o buraco
E completamos nossa cadeia de pensamento
Que nada impede à razão de sucumbir
Em algum momento à vontade
Em que o ápice disso seria o suicídio
(de Ian Curtis, de Kurt Cobain, o nosso próprio...)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Paixão

Meus poros vibram de uma dor intensa
Qual paralisia que antecede a morte
Mas é somente a ausência do bem amado
Que cobra seu valor em litros de carne
Onde sanar a dor que penetra fundo
Sair em busca do amor em bares
É lá onde ele se esconde do mundo
Saciar então meus desejos por instantes

Mas sabendo que o resto é sempre angústia

Escuridão

Um pouco de luz saciaria meu ser
em momento tão turbulento
Dias e mais dias de escuridão mental
Fatos e prejuízos que se acumulam
Um pouco de luz diminuiria minha angústia
Já vertida em sangue e em dor
A chuva lá fora combina com meu sentir
chove a cântaros também dentro de mim
Os objetos mudos distanciam-se
O passado passa por mim como tufão
Poder esquecer por um momento o mundo
Meu corpo pressente a cada poro
a difícil tarefa de poder ser
Mas jamais cair em ilusões
equilibrar-se no que for possível

e seguir em frente por entre mortos