quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Entorpecimento

Vadias as noites do insone púbere
Cabeça cheia de imagens flutuantes
Pedaços de corpos que se tocam
Humidamente e aprontam o espetáculo
Acordar sem perguntas a responder
O sol ainda escondido no zênite
Nuvens negras que flutuam descontroladas
Viajantes entorpecidos pelo ácido
Passeiam por campos ermes e floridos
Sintonizando seu pensamento comum
E no horizonte lúgubre uma imagem
Eterna e eternamente realimentada
Pisando chãos cobertos de lama
Vagueiam insensatos homens perdidos

Eremita

Na vertente do rio
Um homem esquecido
Sua morada interna
Eleva-o aos céus
Matéria nua e pura
Prendem-lhe o sentido
Vive de flores e águas
Mansidão que o revigora
Poder que encontra
Nos vapores de sua mente
Cândido homem 
Tão poucos como ele no mundo!



Sonhos e nuvens

sonhos e nuvens
formações euclidianas
desejos em profusão
mistérios que desanimam
votos de silêncio
sonhos e nuvens
marcando estações
               verdades
                         fé
quão longe os homens de seus sabores
imagens quebradas aos pés de outros altares
vingança premeditada e uma vez conseguida
sonhos e nuvens
cores aberrantes
coincidências flutuando dentro da mente
razão obscurecida sob o topete branco
um calor infernal no trem das sete horas
partida tantas vezes sentida e adiada
sonhos e nuvens
algodão desvanescente

Herança paterna

tempo pouco passou-se pós sua morte
negras roupas usadas nunca demasiado
e pensamentos voltam-se para restos deixados
objetos para os quais presta-se o desejo
são eles marcas eternas de uma ignorância
herança paterna que cobre outros restos ausentes
pois pelo que é preciso lutar um dia não é
assimilável quanto aquilo que fica bem ter findado
um pai morto que deixa casas e dinheiro
os herdeiros contentes com um resvalo de prontidão
mais preferível seria a coragem e o bom senso
mais preferível seria o amor e a bondade
um pai nada disso deixa de herança
como marca do que um dia pode transmitir
não vale o que de memória resta nos filhos
melhor ser esquecido e deixado aos documentos
esses sim valorados pelos pouco exigentes
restos materiais não deveriam tanto interessar
mas quando não se herda nada mais que isso
melhor é a ilusão de uma paternidade finda a tempo

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Falsos sábios


Convidados à mesa da sabedoria
Cada um com seu quilate a repor
Dez minutos depois a mesa vazia
Em fuga homens seriamente iludidos
Espalhando o vazio-saber pelo mundo

Guerra santa

Claro o clero com cruzes no peito
Luzes dos obuses que cruzam o céu
Cidades de idades milenares sob fogo cruzado
Igrejas invadidas e entupidas por religiões
Fome dos que não comem e somem da vida
Governantes, deuses, juízes, padres... povo
Ondas de andantes em fuga plena de amado país
Homens tolos que geram guerras e riem a torto

Destino

Fata morgana, caminho cruel
Pode um homem caminhar sobre brasas?
Volto minha outra face para o Oriente
Outra forma de vida, desligamento
Destino inesperado bate à porta
Fortuna, aquela jamais esperada
Duas fontes, dupla escolha que inquieta
                     horizontes
                     nomes
                     amores
                     ilusões
                     mortes
                              Longe de mim ser um
Somos todos os homens
Bestificados com o destino da humanidade
Paro e contemplo
                         o eterno que me assedia
Vacas pastando em campos sofridos
Carne sangrando na mesa capitalista
Vozes que se ouvem no quarto ao la
                      sons
             luzes
                      partos 
                      tiros 
                      mortes