segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Patins

É um cair-se e levantar-se infinito
Pés sobre pés sobre pés
Animais de estimação sobre rodas
Homens, primatas, homens
Um dia levantaram sobre pés
Agora querem mais pés sobre pés
Sapatos, rodas, muletas
Um dia alcançar o espaço
E esquecer a alpercata
Voltar a cheirar o chão e o cu do outro!
Erguer-se em dois pés tem seu preço
Bípedes, não podem mais querer
Bípedes, inventam os patins

E roda sobre um desejo a conquistar

Pátria Amada

Fatos e conversas mirabolantes
Ocorridos em corredores de S. Geraldo
Mulheres perdidas em seios vibrantes
Desejos escondidos por vielas de S. Geraldo
O que escutam é o sussurrar
Cantante e marcante de corpos vadios
Em igrejas e bares de S. Geraldo
Carros, máquinas, homens, porcos
Grunhem e esbaldam-se pelo
Chiqueiros respeitados de S. Geraldo
O que contam encantam passeantes
As visitas nem sempre voltam
O que assusta é o mesmo sempre
A pasmacenta vida de S. Geraldo
Mas por que todos são felizes
No não-nada, no absurdo seio

Deste pavoroso mundo de Sônia Geraldo?

Pindorama

Falésias ocas e bem situadas
Às vezes um mapa de cabeça
Para baixo e distanciando-se
Continentes que se rompem
Montanhas que atingem o céu e
Criam vales por onde passam rios
Terra do mel, de céu azul e quente
Terra da fortuna e de vida fácil
Um novo pindorama de homens explorados
Terra brasilies, “celeiro do mundo”
Gruda os olhos em símbolos
De fertilidade e descontentamento
Onde o sul junto ao norte?
Onde estados unidos do Brasil?
Migrantes cansados e interrogativos
Lágrimas que não se lançam mais
Pobreza, miséria refletida no pó
Fronte feita fato fútil
O Zé Pelé corre mato solto
E chega a zonas de edifícios cinzentos
Onde a coragem de voltar ao chão?
Onde o clima de açambarcamento?
Um coração, um dia de cidadão
Mesma coisa, cidade e sertão
Mesmo plátano como palco onde
Desenrola-se o crime da incompreensão
Pindorama, que se ama em vão
Terra de política que é mentira
Terra de homens fracos seduzíveis
Terra ainda assim amada e sôfrega
Um júbilo que não é só da criança
Para que outra terra imigrar?

Aqui nascer, crescer a aqui morrer

domingo, 29 de setembro de 2013

Ósculo


Tocar de leve uma face ensolarada
E ele ri de nossa doce intensão
Permite que o beijemos
Um beijo de paz e amizade
Permite que sintamos seu agradecer
Comovido ele olha-nos encantado
E ri de nossa doce intensão
Por que não amar um verdadeiro amigo?
Por que não rejubilar-se com sua presença?
Beijá-lo em nome da paz e da amizade
Tocar de leve sua face ensolarada
E ele ri de nossa doce intensão
Falar-lhe da cruel importância
De sua presença constante
Rir de seu riso encantado
A que ele sempre se permite

Ante nossa doce intensão

Ajoelhe-se

Se meu cão pula o muro do quintal
Se o guri assalta a padaria da esquina
Ajoelhe-se, pois isso é o mundo
Se a polícia rouba como bandido
Se o papa proíbe a masturbação
Ajoelhe-se, pois isso é o mundo
Se os Beatles podem ser esquecidos
Se o dinheiro não vale mais nada
Ajoelhe-se, pois isso é o mundo
Se o seu melhor amigo rouba sua namorada
Se o seu patrão rouba o seu salário
Ajoelhe-se, pois isso é o mundo
Mas ajoelha para imediatamente se levantar

E reagir com um forte golpe no inimigo

sábado, 7 de setembro de 2013

Fênix do Rio – 02/11/93

A morte veio acalmar seu fogo
Pena que tiveste que ir
Tão cedo quanto sua vinda
Deixas tua imagem no cinematógrafo
Ainda me lembro dos seus 15 anos
Loiro e pequeno, querendo ser grande
Lutavas em vão contra poderes
Que então não compreendias
De cabelos curtos ou cabelos longos
Suas faces rosadas no vídeo
Por que, ai, por que essa ida súbita?!
E morres em meio a tantas mortes
Que obscurecem teu desaparecimento
Então, o que andavas fazendo
Por que rios foste levado
Há uma dor dentro do meu peito
Queria não saber que partistes
Cegueira talvez necessária
Fica sua alegria no vídeo
Seu chapéu e seu chicote à mão
Seus abraços ao jovem Reeves
Que ficou quando tu fostes
Belas imagens eternizadas
Que mantém teu corpo intacto
A salvo do envelhecimento que
Calmamente renegastes
Quiseste morrer jovem...
O amor é cegueira pura
Mais ainda a idolatria
Mas ambos fazem sofrer
Quando se perde a quem se ama
Quando se perde a quem se idolatra
Será que como Fênix

Renascerás das cinzas do rio?

Mortos vivos

Recuperar Beatriz era sua missão
Por isso caminhou entre os mortos
Retirar Sara do mundo sem vida
Por isso caminhou entre os mortos
Enfrentar o demônio em sua casa
Por isso caminhou entre os mortos
Os coveiros em dia de greve
Por isso os mortos caminharam entre os vivos
Que dia esse em que os mortos ressuscitam?
Vem fazer companhia aos vivos
Ou vem igualar-se a seus irmãos
Perguntas escabrosas uns lançam
Estaríamos mais mortos que vivos

Estariam mais vivos que mortos?