terça-feira, 6 de agosto de 2013

Viagem



 E quem chega um dia pode partir...
E ela foi-se um dia
Fez frutos, que fizeram frutos, que fizeram...
Nem era o começo, nem fim
Era o meio que liga gomos
Da corrente do pai e do filho
Foi filha, mãe, avó, bisavó
Foi feliz e sofreu e um dia partiu
Mulher foi, partiu homem também
Na luta que chegou a travar
Os que deixaram não suportaram sua ausência
Mas compreenderam
Os que souberam permitir-se
Louvaram em agradecimento
O mundo fica mais vazio
Mas também fica mais mundo

Batman



Voo cego sobre a cidade da neblina
Que perseguir senão o que lhe corrompe?
E o que lhe corrompe é a lembrança da noite
E toda possibilidade dela é sinal de que
O crime não compensa a punição e o remorso
De que desejo nasce o desejo do outro
Mudar de identidade e não reconhecer a verdade
E a verdade é a verdade de um desejo
E o crime é o sinal de seu próprio crime
O morcego é o disfarce para o sangue desejado
Esquecido e transformado no que agora é
Homem-morcego compete o crime que marca
A percepção de seu próprio crime
De um crime a outro crime uma parte
Onde ele pode destruir no outro o nome
Que um dia ele mesmo quis conter

terça-feira, 9 de julho de 2013

A luta pelo desejo



É preciso latir para fazer-se ouvir
E morder para que sintam nosso drama
Se não nos escutam, firamos seus ouvidos
Com palavras ásperas nascidas em fogo
É preciso saber destruir o que nos convém
Para aceder ao que por todos é assediado
Morrer e reviver em cantos escuros
Para poder dizer-se bem vivido
O que nos incutem deve ser questionado
Pois nada parece dizer-nos respeito
O que queremos, quem pode afirmar
Além de nós mesmos, os desejantes?
Não permitir que outro deseje por nós
Permitir-nos falar e gozar o buscado
Se preciso, poder morrer por ele

Elvis morreu




Elvis eu vi um dia no palco
(quem sabe em seu último show)
Estava gordo e suava ao cantar
Parecia alheio a si e ao público
Mas cantava como nunca cantou
(quem sabe seu último canto)
Elvis um dia pensou ser grande
E ele o foi nas devidas proporções
Inventou o rock e o perpetuou
A música do século vinte
Mas um dia, como todos, Elvis morreu...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Existência



Aos cinco anos de idade
Cores diversas pelos olhos passam
Nem tudo a memória guarda
O que se pode carregar pela vida
São faíscas do que fomos
Memória quão pouca e traidora!
E que nos fixa no presente
Mas o passado age em silêncio
E de tijolo em tijolo
Ergue o muro de nossa existência
Tijolos que são marcas eternas
Do que fomos e poderemos ser
Escavar, escavar a terra em volta
E não encontrar a saída
Morrer em esquecimento
Somente porque um dia nascemos