terça-feira, 22 de janeiro de 2013

R.



 
Um sono intenso cai sobre R.
Langor-memória de um útero eterno
O cansaço diário, trabalho
Os seus sonhos de juventude
R. preso entre duas gerações
A visão no homem maduro
O desejo no adolescente inapto
A figuração e a transformação
O desenvolvimento pelo crivo do outro
Marx e Freud um dia sobrepostos
R. entre o humano e o animal
O patos da ternura e o prazer da carne
Fatos que antecedem sua existência
Motores sobre os quais não tem controle
R. e seus pés que não lhe obedecem
Seguindo por caminhos de desesperança
Trinta anos não lhe servem muito
Apenas um mapa mal traçado

R. preso entre o passado e o futuro
As marcas do que ele foi não
Lhe constroem uma máscara segura
O tempo a carcomer-lhe as vísceras
A velocidade, o transbordamento
O seu sentido anti-horário
R. e sua visão da morte
A esperança de um dia encontrá-la
A resolução, a confirmação essencial
De seu estado de morbidez atual

Trabalho




Lavradores
                   o campo da mente abstrato
Pescadores
                    a imagem refletida no peixe
Caçadores
                  produtores de morte instantânea
o sino, a fome e o sono...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nietzsche



Nietzsche e o cavalo confrontados
Na rua – o enlouquecimento
Os desvelos de sua mente em Sils-Maria
O som doce do piano de Peter Gast
A filosofia como recordação de algo
Perdido – aforismos de si mesmo
Zaratustra convalescente e angustiado
Nietzsche ansiava incansavelmente
Por Lou – tendo Rilke como rival
E falava de rios e montanhas
De homens ensimesmados e iludidos
Saboreava os escândalos que causava
E desvairado proferia discursos proféticos
Zaratustra dividido entre o bem e o mal
Nietzsche e seus passeios por
Prostíbulos – a doença a carcomer seu corpo
Não resistia ao chamado do desejo
A filosofia não garantindo a sublimação
Os pontos de ancoragem que encontra
A loucura fundada sobre a razão
Zaratustra e a escuridão da caverna

domingo, 20 de janeiro de 2013

O Grande Deus




O grande Deus borrou suas calças
Ao perceber a força da Criatura
E lançava olhares pelo Universo
Em busca de algo maior que Ele
Como um artista que ao ver sua Obra
Deturpada e mal entendida
Recorre à Lei superior para protegê-la
O Maior de Todos caiu-se de horror
Ao ver Aquele que deveria ser de molas
Mover-se por conta própria
E angustiado pediu ajuda aos outros
Deuses que até então ignorava
Mas a Criatura desejava apenas
Seu próprio desejo um dia vislumbrar

Palavras



As palavras caem aos borbotões
Do céu onde elas moram
E dançam céleres nas bocas
Que falam como jatos de arrogância
As letras tomam sentido e em sua
Loucura evidenciam o mundo
E o mundo observa contente o seu silêncio